Categoria: Poema
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Mary Oliver – Chumbo

Eis uma históriade partir o seu coração.Quer ouvi-la?Neste inverno, os mergulhões pousaram em nossa enseadae morreram, um por um,de nada que conseguíssemos ver.Um amigo me contousobre um na costaque ergueu a cabeça, abriuseu elegante bico e gritouno longo e doce deleite de sua vida,grito que, se você já ouviu,sabe que é uma coisa sagrada,e pelo…
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Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”*

Já estás com quem desejas. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, extinguir-se-á com a aurora,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão as estrelas, e também a lembrança,e a alegria findará…
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Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]
![Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/fire_flames-wallpaper-1920x1080-1.jpg)
Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foiverdade — que não amei ninguém depois de ti nemo meu corpo procurou nunca mais outro incêndioque não fosse a memória de um instante juntodo teu corpo; e que deixei de ler quando partistepor não suportar as palavras maiores longe da tua boca;e que tranquei os…
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Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto,…
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Jorie Graham – Então a chuva

depois de anos de virga1, depoisde muito quase& muito nunca mais, depoisde unir-se aos relâmpagos secos & correntes descendentes & fogo,depois de pegar um caminhoalternativo pelahistória & evitar- nos, depois das árvores,depois dos jardins,depois que as duras sementesforam enterradas o mais fundo possível & mantidas vivas pelo sereno,depois que os sulcosque outrora ela abriuse encheram…
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Josep M. Rodríguez – Equação

De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é…
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Vasko Popa – Na aldeia dos ancestrais

Na aldeia dos ancestrais Alguém me abraçaAlguém me fita com olhos de loboAlguém tira o chapéuPara que eu o veja melhor Todos me perguntamVocê sabe quem eu sou Velhotes e velhotas desconhecidosApoderam-se dos nomesDe rapazes e garotas de minha lembrança Pergunto a um delesSe ainda está vivo o ricoGueórguie Kúria Eu sou ele responde-meCom voz…
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Galway Kinnell – Shelley

Quando eu tinha vinte anos, o único espíritoverdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley1,Shelley, que escreveu tratados defendendoo ateísmo, o amor livre, a emancipaçãofeminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,e poemas sobre a felicidade do amor romântico,Shelley, que, soube mais tarde, talvezquase tarde demais, se casou novamente com Harriet,então grávida de…
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Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas…
