Ellen Bass – Pleasantville, New Jersey, 1955

Eu nunca tinha visto um arco-íris ou colhido
um tomate de um tomateiro. Nunca havia atravessado um pomar
ou uma floresta. A única árvore que eu conhecia
crescia em um quadrado de terra recortado
do asfalto, a amoreira
que meu pai estava matando lentamente, enfiando
pregos de cobre em seu tronco.
Mas em uma tarde quente de verão
minha mãe me deixou arrastar a cama para o telhado.
Lençóis secando nos varais,
a caixa de areia do gato no canto,
deitei-me em uma extensão de azul. O sol ondulava
sobre minha pele como uma brisa sobre a água.
Minhas pálpebras se fecharam. Eu podia ouvir os bagos maduros
rebentando sobre o beco, os passos
dos clientes acompanhando o viscoso mosto violeta.
Ouvi os indigentes nos caixotes de madeira,
os sacos de papel farfalhando na garganta do Thunderbird.
Motores de carros engasgavam, ganhavam vida e morriam
no pátio da A&P e eu sentia o cheiro de graxa e café
do restaurante onde Stella, a sapatona, lavava pratos,
um maço de Camels enfiado
na manga enrolada de sua camiseta.
Na porta ao lado, Helen Schmerling se apoiava na vidraça
deslizando seu punho dentro de meias costuradas e sem emendas,
unhas dobradas, para expor a tonalidade, enquanto Sol
sugava o tutano de seu grosso charuto,
a fumaça se acomodando nas saias de tweed e nos suéteres de mohair.
E abaixo de mim, algo forte fervilhava
na loja de bebidas, algo vivo
no balcão de madeira manchado e nos restos pungentes
de cerveja nas garrafas vazias, nos pescoços pálidos e tosados
dos entregadores, seus antebraços peludos,
minha mãe cumprimentando a todos, seu riso frequente.
A caixa registradora soava
enquanto meus pais abriam caminho, dólar
por dólar amassado, para a classe média.
O sol estava delicioso, acariciando minha pele.
Senti que recém chegara em um corpo
enquanto a cidade girava ao meu redor —
o Teatro Rialto, a Allen Calçados, a Joalheria Stecher,
todo o centro da cidade com três quarteirões de extensão.
E eu estava no centro do nosso minúsculo
sistema solar jogado na borda
de um braço menor, um esporão de uma galáxia espiralada,
encharcada de luz.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Pleasantville, New Jersey, 1955”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014.

Miniantologia Poética – 21

Pleasantville, New Jersey, 1955

I’d never seen a rainbow or picked
a tomato off the vine. Never walked in an orchard
or a forest. The only tree I knew
grew in the square of dirt hacked
out of the asphalt, the mulberry
my father was killing slowly, pounding
copper nails into its trunk.
But one hot summer afternoon
my mother let me drag the cot onto the roof.
Bedsheets drying on the lines,
the cat’s cardboard box of dirt in the corner,
I lay in an expanse of blueness. Sun rippled
over my skin like a breeze over water.
My eyelids closed. I could hear the ripe berries
splatting onto the alley, the footsteps
of customers tracking in the sticky purple mash.
I heard the winos on the wooden crates,
brown bags rustling at the throats of Thunderbird.
Car engines stuttered, came to life, and died
in the A&P parking lot and I smelled grease and coffee
from the diner where Stella, the dyke, washed dishes,
a pack of Camels tucked
in the rolled-up sleeve of her T-shirt.
Next door, Helen Schmerling leaned on the glass case
slipping her fist into seamed and seamless stockings,
nails tucked in, to display the shade, while Sol
sucked the marrow from his stubby cigar,
smoke settling into the tweed skirts and mohair sweaters.
And under me something muscular swarmed
in the liquor store, something alive
in the stained wooden counter and the pungent dregs
of beer in the empties, the shorn pale necks
of the deliverymen, their hairy forearms,
my mother greeting everyone, her frequent laughter.
The cash register ringing
as my parents pushed their way, crumpled dollar
by dollar, into the middle class.
The sun was delicious, lapping my skin.
I felt that newly arrived in a body
as the city wheeled around me—
the Rialto Theater, Allen’s Shoe Store, Stecher’s Jewelers,
the whole downtown three blocks long.
And I was at the center of our tiny
solar system flung out on the edge
of a minor arm, a spur of one spiraling galaxy,
drenched in the light.

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