Ellen Bass – Se Deus não existe

Então não há ninguém
para nos amar indiscriminadamente,
para girar nosso planeta como um globo, para manter a seiva —
xilema e floema — deslizando para cima e para baixo como a vara
de um trombone, as células respirando através das abundantes mitocôndrias,
sorvendo a chuva, absorvendo a luz do sol.

A lampreia prende sua boca redonda
no flanco de um peixe, raspando e sugando o sangue.
A píton de mandíbula articulada ingere uma gazela envolta em veludo.

Seda de aranha, a cadeia polipeptídica dobrada
para lá e para cá, lençóis plissados mais resistentes que o aço.
Elas se estendem e se enrolam, respondendo como um amante.
Quem vai notar? Quem irá assistir
enquanto as patas articuladas enrolam a libélula
dando voltas e voltas, asas enormes zumbindo?

Quem vai se agachar ao lado do líquen enquanto ele se infiltra sobre a rocha,
para anotar seu milimétrico crescimento como um pai fazendo marcas
de lápis na parte de trás da porta? E quando ele morrer
envenenado — com mil, dois mil anos de idade,
esta criatura modesta, meio folha, meio arbusto,
quem irá chora-lo? Quem entoará sua elegia?

As calotas polares estão se estilhaçando.
Populações de continentes inteiros entram em colapso — os vírus eclodem
continuamente das superfícies complexas e graciosas das células T,
reunindo-se e empilhando-se em intrincados vales e espirais.
Já não é possível encontrar um único pica-pau-bico-de-marfim ou lobo-da-tasmânia.
A precipitação radioativa circunda o planeta.

Deve haver algo que você ame: as cerejeiras
na Storrow Drive explodindo em flores enquanto você passa,
cada árvore libertando seus botões desbotados como fogos de artifício em tons pastel.
Ou voltar de carro de Poipu Beach, as crianças desabadas sobre você,
a lua cintilando entre mil palmeiras.

Quando os tentilhões enlouquecem cantando e se fartando
nas últimas das peras de novembro, quando Pavarotti canta,
ou uma mãe canta para o seu bebê, I can’t give you anything but love,
andando pelo tapete manchado do corredor,
quando ela cai na cama novamente e seu novo amante reúne suas partes
como um favo de mel, alguém
precisa prestar atenção. Abra sua janela.
Ouça, ouça-os, e veja.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “If There is no God”. In:_____Mules of Love. EUA: BOA Editions, April 01, 2002.

Miniantologia Poética – 2

If There Is No God

Then there’s no one
to love us indiscriminately,
to twirl our planet like a globe, to keep the sap—
xylem and phloem—gliding up and down like the slide
of a trombone, the cells breathing through teeming mitochondria,
slurping rain, eating sunlight.

The jawless lamprey clamps its round
mouth on the flank of a fish, rasping and sucking blood.
The hinged-jaw python ingests a velvet-cloaked gazelle.

Spider silk, the polypeptide chain folded
back and forth, pleated sheets stronger than steel.
They stretch and coil, responding like a lover.
Who will notice? Who will watch
while the articulate legs wrap the dragonfly
round and round, huge wings whirring?

Who will crouch beside the lichen as it wheedles into rock,
mark its single millimeter’s growth like a father penciling tracks
up the back of the door? And when it dies—
a thousand, two thousand years old, this modest
leaflike, shrublike creature, poisoned,
who will mourn? Who will chant its elegy?

The polar ice caps are cracking up.
The people of whole continents collapsing—viruses bud
continuously from the graceful, convoluted surfaces of T cells,
gathering and heaping in intricate curls and valleys.
We cannot find a single ivory-billed woodpecker or Tasmanian wolf.
Radioactive fallout circles the planet.

There must be something you love: the cherry trees
on Storrow Drive bursting into bloom as you pass,
each tree releasing its pale buds like pastel fireworks.
Or driving back from Poipu Beach, the children slumped against you,
the moon flashing through the thousand palms.

When finches go crazy gorging and singing
in the last of the November pears, when Pavarotti sings,
or a mother sings to her baby, “I can’t give you anything but love,”
walking the stained carpet of the hallway,
when she falls back into bed and her new lover gathers
her up like honeycomb, someone
must pay attention. Open your window.
Listen, listen to them, and behold.

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