Ellen Bass – Portão C22

No portão C22 do aeroporto de Portland
um homem com um chapéu de couro de aba larga beijava
uma mulher que chegara de Orange County.
Eles se beijavam e se beijavam e se beijavam. Muito tempo depois
que os outros passageiros afivelaram as alças de suas bagagens de mão
e se dirigiram rapidamente para o estacionamento,
o casal ficou lá, os braços em volta um do outro
como se ele tivesse acabado de desembarcar na Ilha Ellis1,
como se ela tivesse sido finalmente liberada da UTI, saído
do coma, sobrevivido a um câncer ósseo, descido
da Annapurna2 apenas com as roupas do corpo.

Nenhum dos dois era jovem. A barba dele era grisalha.
Ela carregava alguns quilos a mais que você até poderia imagina-la
dizendo que tinha que perder. Mas eles trocavam beijos
generosos como o oceano no início da manhã,
a forma como ele se avoluma e intumesce, sugando
para baixo cada pedra, engolindo-as
vezes sem conta. Estávamos todos assistindo —
passageiros aguardando o voo atrasado
para San Jose, as aeromoças, os pilotos,
a mulher de avental cobrindo Cinnabons, o homem vendendo
óculos escuros. Não conseguíamos desviar o olhar. Podíamos
sentir o sabor dos beijos macerados em nossas bocas.

Mas a melhor parte foi a expressão no rosto dele. Quando ele recuou
e olhou para ela, seu sorriso meigo de admiração, quase
como se ele fosse uma mãe ainda aberta após dar à luz,
como a sua mãe deve ter olhado para você, não importa
o que possa ter acontecido depois — se ela bateu ou abandonou-o
ou se você está solitário agora — uma vez você deitou lá, o vérnix
ainda não removido, e alguém contemplou-o
com se você fosse o primeiro nascer do sol da terra.
Toda aquela ala do aeroporto silenciou,
todos nós tentando entrar no corpo de meia idade daquela mulher,
em sua bermuda xadrez, sua blusa sem mangas, seus óculos,
seus pequenos brincos de argola de ouro, inclinando nossas cabeças para cima.

N. do T.:

1. A Ilha Ellis, situada na foz do Rio Hudson, foi o principal posto de imigração dos EUA entre 1892 e 1954, tendo testemunhado a chegada de mais de 12 milhões de estrangeiros atraídos pelo sonho americano. A ilha é hoje o símbolo da imigração para os Estados Unidos.

2. Ela se refere à montanha Annapurna situada na cordilheira Annapurna da província de Gandaki, centro-norte do Nepal.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Gate C22”. In:_____The Human Line. EUA: Copper Canyon Press, June 01, 2007.

Miniantologia Poética – 6

Gate C22

At gate C22 in the Portland airport
a man in a broad-band leather hat kissed
a woman arriving from Orange County.
They kissed and kissed and kissed. Long after
the other passengers clicked the handles of their carry-ons
and wheeled briskly toward short-term parking,
the couple stood there, arms wrapped around each other
like he’d just staggered off the boat at Ellis Island,
like she’d been released at last from ICU, snapped
out of a coma, survived bone cancer, made it down
from Annapurna in only the clothes she was wearing.

Neither of them was young. His beard was gray.
She carried a few extra pounds you could imagine
her saying she had to lose. But they kissed lavish
kisses like the ocean in the early morning,
the way it gathers and swells, sucking
each rock under, swallowing it
again and again. We were all watching—
passengers waiting for the delayed flight
to San Jose, the stewardesses, the pilots,
the aproned woman icing Cinnabons, the man selling
sunglasses. We couldn’t look away. We could
taste the kisses crushed in our mouths.

But the best part was his face. When he drew back
and looked at her, his smile soft with wonder, almost
as though he were a mother still open from giving birth,
as your mother must have looked at you, no matter
what happened after—if she beat you or left you or
you’re lonely now—you once lay there, the vernix
not yet wiped off, and someone gazed at you
as if you were the first sunrise seen from the Earth.
The whole wing of the airport hushed,
all of us trying to slip into that woman’s middle-aged body,
her plaid Bermuda shorts, sleeveless blouse, glasses,
little gold hoop earrings, tilting our heads up.

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