Mês: março 2022
-
Carlos Drummond de Andrade – O Medo

Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia…
-
Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar este mundo

Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã…
-
Rainer Maria Rilke – Morgue

Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais…
-
Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma…
-
Ruy Proença – Tiranias

antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
-
Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a…
-
Darcy Ribeiro – A Indesejada

Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na…
-
Carolyn Creedon – Mulher, minada

Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e…
-
Darcy Ribeiro – Amor

“Amor”, um poema de Darcy Ribeiro que assume a paixão como força carnal absoluta, onde dois corpos se afirmam contra o mundo na vertigem do desejo.
-
Donizete Galvão – Ruminações

Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com…