Mês: março 2022
-
Ferreira Gullar – de Sete Poemas Portugueses (4)

Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
-
Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…
-
Caetano Veloso – O Homem Velho

O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem…
-
Anne Sexton – A um amigo cuja obra alcançou o triunfo

Considere Ícaro, colando aquelas asas pegajosas,testando aquele estranho puxãozinho na omoplata,e pense naquele primeiro momento perfeito sobre o gramadodo labirinto. Pense na diferença que isso fez!Lá embaixo estão as árvores, desengonçadas como camelos;e aqui os estupefatos estorninhos passam batendo as asas,e pense no inocente Ícaro, que está indo muito bem:maior que uma vela, sobre a…
-
Cassiano Ricardo – O Relógio

Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
-
Octavio Paz – Pedra de sol

Pedra de sol La treizième revient… c’est encor la première;et c’est toujours la seule – ou c’est le seul moment;car es-tu reine, ô toi, la première ou dernière?es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant? GÉRARD DE NERVAL, Arthémis. Um salgueiro de cristal, um choupo de água,um alto repuxo que o vento arqueja,uma árvore…
-
Nelson Santander – Renata Maria

Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
-
Miller Williams – Um poema para Emily

Fatos e dedos pequenos e o mais distante de minha vezna terra, a um palmo e duas gerações de mim afastada,neste ainda presente eu tenho cinquenta e três.Você, nem vinte e quatro horas completadas. Quando eu tiver sessenta e três, e você, dez completos,e você não estiver nem longe nem perto de mimseus braços se…
-
Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas…
-
Dan Gerber – Para Deneb

Tão impossivelmente distante,dizem os eruditos astrônomos,mais remotado que qualquer outra Coisa queeu já tenha visto,calorosa companheira de uma noite de verão,um quarto de milhão de vezesa luz do nosso sol,obliterando os quatrilhõesde milhas da escuridão à sua volta,ainda assim tão familiar,tão em casa com as estrelas do nosso bairro,aqui na cauda do Cisne,tão serena em…