Tag: Vida
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Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado.…
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Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar…
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Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim

ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
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Helder Moura Pereira – “Chegamos ao fim do dia…”

Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta…
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Rui Costa – Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua…
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Miguel Martins – Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no…
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Paulo Henriques Britto – “Da metafísica”

Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
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Joan Margarit – A Espera

Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por…
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Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe

Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem…
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Joan Margarit – Era Rubra

A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia…