Tag: Tempus Fugit
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Jorge Luis Borges – As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas,…
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Carlos Drummond de Andrade – A Corrente

Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
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William Shakespeare – do Macbeth (excerto)

Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena.…
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Antonio Cicero – Nihil

nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
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Jorge Luis Borges – O Suicida

Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.:…
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Mário Quintana – O Morto

Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
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Ferreira Gullar – Anoitecer em Outubro

A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
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Mário Quintana – Pequeno Poema Didático

O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são…
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Domingos Carvalho da Silva – Mensagem

Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar…
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Carlos Drummond de Andrade – Palavras no Mar

Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória…