Tag: Tempus Fugit
-
Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os…
-
José Paulo Paes – Revisitação

Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar.…
-
Jaime Gil de Biedma – Não Voltarei a ser Jovem

Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é…
-
Rainer Maria Rilke – Dia de Outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e…
-
Bruno Tolentino – Via Crucis

A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma…
-
Percy Bysshe Shelley – Ozymandias

Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias,…
-
Giuseppe Ungaretti – Natal

Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
-
Jorge Luis Borges – Nuvem (1)

Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é…
-
Ferreira Gullar – Voltas Para Casa

Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis…