Tag: Morte
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André Tecedeiro – de “O Número de Strahler”

nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
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Miguel Torga – Princípio

Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
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Pedro Mexia – Vamos Morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
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Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco…
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Helder Moura Pereira – “Chegamos ao fim do dia…”

Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta…
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Armando Freitas Filho de “Rol”

150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim…
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Miguel Martins – Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no…
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Paulo Henriques Britto – “Da metafísica”

Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
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Manuel António Pina – Os Mortos

Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras…
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Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me…