Tag: Morte
-
Donizete Galvão – Solitude

Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que…
-
Alison C. Rollins – Para quem me lê agora

Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas…
-
Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente…
-
Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, quando o enredoexige que eu me torne pedra,o sol intervém. Em certas manhãsde verão saio de casae o céu se abree se derrama dentro de mimcomo se eu fosse uma santaprestes a morrer. Mas o enredoexige que eu viva,seja comum, não diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos ardem quando passo. Trad.: Nelson…
-
Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
-
Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a…
-
Angela Melim – Meu pai nos abandonou

Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017
-
Rosanna Warren – Comparação

Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na históriaque ela sempre nos contava, teve que encararseu primeiro salto olímpico de esqui e, darampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhavatão vertiginosamente que sua borda inferiordesaparecia de vista, olhoupara um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redorcomo barcos de brinquedo em uma banheira,…
-
Annie Dillard – Como consumimos nossos dias

Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão…
-
Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017