Tag: Memória
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Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para…
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Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda…
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Vicente Gaos – Homem Total

“Homem Total”, um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e…
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis…
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Manuel António Pina – Gare du Sud

Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos…
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Nuno Júdice – Poema (Arredores)

A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas…
