Tag: Memento Mori
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura,…
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Antonio Cicero – Prólogo

Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e…
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos…
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Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana,…
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Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir

Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
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José Mateos – Canção 1

Ainda quase um meninoe sentaste a esperar àbeira do grande silêncio. Pensavas que, a sóscom tua voz, talvez pudessesroubar ao mar seu segredo. Foi-se a tua juventude.Mudos passaram os anose agora estás oco por dentro. Poderias, se enfim soasseo acorde do grande silêncio,chegar a cantar seu eco? Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 1…
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André Tecedeiro – de “O Número de Strahler”

nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
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Miguel Torga – Princípio

Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
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Pedro Mexia – Vamos Morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.