Tag: Memento Mori
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Rui Knopfli – Fim de tarde no café

Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de…
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Vasco Gato – Eterno Outono

Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por…
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Nuno Júdice – Poema (Arredores)

A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas…
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César Vallejo – Paris, Outubro de 1936

De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna,…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de…
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Ian Hamilton – Pai, Morrendo

Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você…
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Manuel António Pina – KM 82

I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma…
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José Mateos – Canção 10

Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
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Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado.…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela…