Tag: Memento Mori
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Joan Margarit – Monumentos

O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição…
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Manuel de Freitas – Nada de nada

para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas…
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Fernando Assis Pacheco – R., 1992

Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence…
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Philip Roth – Patrimônio (excerto)

“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério,…
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Manuel António Pina – Corpo presente

Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para…
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Nuno Júdice – É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a…
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Luís García Montero – Resumo dos fatos

Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que…
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Fernando Assis Pacheco – Respiração Assistida

Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a…
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Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.…