Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
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Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
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Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
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Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
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Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou

Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
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Manuel de Freitas – CCB, 2002

Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
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Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final,…
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André Tecedeiro – de “O Número de Strahler”

nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
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Vitorino Nemésio – A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou…