Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Filipa Leal – Entrevista de Emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar…
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Maria do Rosário Pedreira – Ondas

Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de…
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Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça…
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Manuel António Pina – A Canção dos Adultos

Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose…
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Rui Pires Cabral – Recomeço

O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga…
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Abel Silva – O Poço

A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto…
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Manuel António Pina – KM 82

I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma…
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Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado.…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela…