Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Nuno Júdice – Natal

Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única…
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Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar…
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paulo leminski – sossegue coração

sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
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Antonio Cicero – Prólogo

Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
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josé luís peixoto – arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil…
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos…
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Nuno Júdice – O Eterno Retorno

Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só…
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Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir

Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?