Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas…
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Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável…
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Ferreira Gullar – Thereza

Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
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Eugénio de Andrade – Canção Breve

Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que…
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Manuel António Pina – As escadas

Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
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Vasco Miranda – de “Invenção da Manhã”

20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge…
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José Agostinho Baptista – É a prata da minha amada

“É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
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José Paulo Paes – Elogio da Memória

O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
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Ruy Belo – Missa de aniversário

Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo…
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José Régio – Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta:…