Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Théodore Fraenckel – Elegia

X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por…
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José Paulo Paes – De malas prontas

Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da…
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Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem…
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Ferreira Gullar – Fim

Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último…
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Armando Freitas Filho – Autobiografia até agora

No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de…
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Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]
![Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/09/tga-9211-9-6-404-1_10.jpg)
Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo…
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Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna…
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José Paulo Paes – Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na…
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Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu

Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que…
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Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a…