Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Ferreira Gullar – Aqui e agora

1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a…
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Eugénio de Andrade – O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem…
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Manuel António Pina – As Coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência…
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Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que…
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Eugénia de Vasconcellos – Lembra

Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia…
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Tarso de Melo – Hoje

Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo…
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Leila Guenther – Amuleto

nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal…
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Filipa Leal – Estátua da Liberdade

E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não…
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Adelaide Ivánova – sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015

“Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.