Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Eugénio de Andrade – Sou fiel ao ardor…

Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
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Manuel António Pina – A avó

Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
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Armando Silva Carvalho – Struggle for life

Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez…
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André Oviedo – Caixa-Preta

em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
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José Miguel Silva – Morangos Silvestres – Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,…
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Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
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Manuel António Pina – Extrema-unção

Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para…
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Ferreira Gullar – Notícia da Morte de Alberto da Silva

(Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem…
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Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te…
