Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um…
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Braulio Tavares – [para mim tanto faz]
![Braulio Tavares – [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/10/images-13.jpeg)
para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
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Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo

Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
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João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de…
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António Ramos Rosa – O jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de…
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José Paulo Paes – Dúvida

Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um…
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Ferreira Gullar – Lições de um gato siamês

Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
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Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora…
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Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém…
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Chacal – como era bom

o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia