Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Jorge Luis Borges – A Chuva

A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega…
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César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças sob a terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,consegui sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander Album…
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Octavio Paz – Antes do Começo

Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com…
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Carlos Edmundo de Ory – Dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me…
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César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé…
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Mario Benedetti – Angelus

Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira…
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Miquel Martí i Pol – No ano que vem

No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder…
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César Cantoni – Uma Arte Invisível

O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander…
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Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida

A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de…
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Amalia Bautista – O Anjo Perplexo

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança.…