Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Eloy Sánchez Rosillo – Aviso aos Caminhantes

Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te…
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Vicente Gaos – Testamento

Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além…
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Ernesto Pérez Vallejo – Perdão, falava em voz alta

Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes,…
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio…
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Luis Cernuda – No Meio da Multidão

Em meio à multidão eu o vi passar, com os olhos tão louros quanto seus cabelos. Caminhava abrindo o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou à sua passagem. Senti o sangue desertar de minhas veias, gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava ao meu lado sem me ver.…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A…
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Josep M. Rodríguez – Primeira Visita ao Zoológico

Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe…
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Joaquín Benito de Lucas – Elegia

Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando…
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Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje,…
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Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o…