Categoria: Poema
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Cheryl Pearson – Encantamento de proteção para um amado

Você sai com o carro em uma noite chuvosa,e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,não vá embora. Eu quero você quente e descontente.O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;a umidade na cozinha…
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Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mime desperto na noite ao menor somcom medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,eu saio e me deito onde o pato selvagemrepousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não sobrecarregam suas vidas…
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Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,pedi dinheiro emprestado a pessoasa quem ele já devia dinheiro.Um deles o chamou de zé-ninguém.Não, eu disse, ele era um fracassado.Ninguém se lembra o nomede um zé-ninguém, é por isso queeles são chamados de zés-ninguém.Os fracassados são memoráveis.O rabino que leu um discurso convencionalsobre um homem que não pertenciaou…
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Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

“O Eco de Minha Mãe”, um poema de Tamara Kamenszain que aborda a experiência de cuidar da mãe em meio à perda da linguagem e da memória, refletindo sobre desamparo, inversão de papéis e o escândalo íntimo da gramática diante do esquecimento.
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Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando elaroubou meu ossonão é de admirarque eu anseie cavar de voltapara dentro desesperadopara reconectar costela e argilae ser inteiro outra vez alguma carência está em mimlutando para rugir com minhaboca por um nomeesta criação é tão ferozque eu preferiria ter nascido eva pensando aqui é um território selvagemirmãos e irmãs unindogarras e asasapalpando…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Thomas Hardy – Autoinconsciência

A pé, ao longo daquela viaEle caminhou naquele dia,Cismando as formas que os sonhos retratavam,E ele só parecia terRaramente olhos para verAqueles momentos que o rodeavam. Cintilantes pássaros douradosFaziam um tropel animado,Bicando longas palhas, efervescentes.E, levando ramos de azevinho,Voavam cruzando o caminhoQue ele percorria, só, indiferente. Da margem até o interiorE por cima e em…
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Manuel António Pina – de “Cuidados Intensivos”

I “A esta hora e neste sítio(miocárdio ventricular esquerdo)é a abstracta vida que me assalta.Eles não sabemque o seu coração pulsa,ferido, no meu coração,que a minha dor alheiavagarosamente mataos seus sonhos, os seus sentidos,os seus dias visíveis e invisíveis,a linha dos telhadosao longe sobre o céu.Como saberiam(com que palavras exteriores?)que existemdentro de mimde um modo…
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Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,brilhando com o petrolato que esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,bisabolol, vejo as rugasfinas, muitas formando losangos,algumas delas longas cicatrizes vacilantes —isso me parece comovente e afortunado. E eu gostodas veias salientes do dorso da minha mão.Faço parte de…
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José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu…