Mês: março 2019
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Luis Alberto de Cuenca – A casa da minha infância

Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o…
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Giuseppe Ungaretti – Silêncio

Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.:…
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Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu,…
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Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que…
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Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é…
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Helena Zelic – Dimensões

“dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
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Sophia de Mello Breyner Andresen – 25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
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Rainer Maria Rilke – Tira-me a luz dos olhos

Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças…
