Mês: julho 2018
-
Jorge Luis Borges – Elogio da Sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante,…
-
Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há…
-
Stein Mehren – A Pedra

Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado…
-
Doris Lessing – Fábula

Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo…
-
Jane Hirshfield – Alzheimer

Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar.…
-
Nuno Júdice – Fotografia

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa…
-
Werner Aspenström – Domingo

Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de…
-
Andreia C. Faria – Descarnação

Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a…
-
Nelson Santander – Mudança Singular
Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de…
-
Piedad Bonnett – Volta à Poesia

Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de…