Tag: Tempus Fugit
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Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que…
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Eugénia de Vasconcellos – Lembra

Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia…
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Leila Guenther – Amuleto

nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal…
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Filipa Leal – Estátua da Liberdade

E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não…
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Joan Margarit – Vida Social

Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais…
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Manuel António Pina – A avó

Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
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Gregory Corso – Tenho 25

Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado…
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Oscar Wilde – Da vaidade

“Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem…
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André Oviedo – Caixa-Preta

em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
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Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber