Tag: Solidão
-
Charles Bukowski – Poema nos meus 43 anos

terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para…
-
Ferreira Gullar – Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe…
-
Frank O’Hara – Autobiographia Literaria

Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos!…
-
Ferreira Gullar – Digo Sim

Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz…
-
Zulmira Ribeiro Tavares – Após o inverno

Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água…
-
Hilda Hilst – Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
-
Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan

Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e…
-
Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas…
-
Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final,…
-
Paulo Henriques Britto – Epílogo

Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante…