Tag: Envelhecimento
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Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os…
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Manuel António Pina – A avó

Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
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Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire

frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de…
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José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que vesti herdei do meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que dirigi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que moro é alugada.Tudo o que eu vier a escrever alguém já terá escrito muito…
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Bruno Darcoleto Malavolta – Epicurus Revisited

disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto…
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José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro…
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Joan Margarit – Canção de Ninar

Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
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Rui Pires Cabral – Morada

Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo…
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Eugénio Andrade – Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.