Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco…
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Gonçalo M. Tavares – O idiota

Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser…
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Ivan Junqueira – Vésperas

A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o…
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Rui Caeiro – Espero um dia

Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória,…
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Geruza Zelnys – descomedimentos

que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem…
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Tarso de Melo – Raiz e minério

ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os…
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Ferreira Gullar – Morrer no Rio de Janeiro

Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da…
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Ferreira Gullar – Reflexão

Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim