Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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David Mourão-Ferreira – Herança

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que…
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Adriano Nunes – Cantar é preciso

para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão…
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Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso…
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David Mourão-Ferreira – Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos…
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Fernando Pessoa – [Tenho tanto sentimento]
![Fernando Pessoa – [Tenho tanto sentimento]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/06/pp840x830-pad1000x1000f8f8f8.jpg)
Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a…
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Álvaro de Campos – Tabacaria

Leia “Tabacaria”, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), um dos maiores poemas do modernismo português sobre identidade, fracasso, sonho e existência.
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Nuno Júdice – Epidemia

Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a…
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Fernando Pessoa – No Túmulo de Christian Rosencreutz

NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a…
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Ferreira Gullar – Reflexão sobre o osso da minha perna

A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte…
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Gonçalo M. Tavares – Sobre o mundo

O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências…