Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem…
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Ferreira Gullar – Despedida

Eu deixarei o mundo com fúria.Não importa o que aparentemente aconteça,se docemente me retiro. De fato,nesse momentoestarão de mim se arrebentandoraízes tão fundasquanto estes céus brasileiros.Num alarido de gente e ventaniaolhos que ameirostos amigos tardes e verões vividosestarão gritando a meus ouvidospara que eu fiquepara que eu fique Não chorarei.Não há soluço maior que despedir-se…
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Ferreira Gullar – Praia do Caju

Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderá de novoo lumeque na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu!Nas águas da piscina se perdeusob as folhas da tardenas vozes conversando na varandano riso de Marília no vermelhoguarda-sol esquecido na calçada. O que…
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Ferreira Gullar – O Que Se Foi

“O Que Se Foi”, um poema de Ferreira Gullar que confronta a irreversibilidade do passado e revela a contradição íntima entre a lucidez da perda e o coração que insiste em pulsar pelo que não volta.
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Cassiano Ricardo – O Cacto

This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços,…
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Ana Luísa Amaral – Silogismos

“Silogismos”, um poema de Ana Luísa Amaral que confronta a inocência da infância com o abismo do tempo, revelando a ternura e o limite das palavras diante do infinito.
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Vinicius de Moraes – Poema de Natal

Para isso fomos feitos:Para lembrar e ser lembradosPara chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos —Por isso temos braços longos para os adeusesMãos para colher o que foi dadoDedos para cavar a terra. Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecerUma estrela a se apagar na trevaUm caminho entre dois túmulos —Por isso precisamos…
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Cassiano Ricardo – A Graça Triste

Só me resta agoraEsta graça tristeDe te haver esperadoAdormecer primeiro.Ouço agora o rumorDas raízes da noite,Também o das formigasImensas, numerosas,Que estão, todas, corroendoAs rosas e as espigas. Sou um ramo secoOnde duas palavrasGorjeiam. Mais nada.E sei que já não ouvesEstas vãs palavras.Um universo espessoDói em mim com raízesDe tristeza e alegria.Mas só lhe vejo a…
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Thiago de Mello – Madrugada camponesa

para os trabalhadores do MST, em 1999 Madrugada camponesa,faz escuro ainda no chão,mas é preciso plantar.A noite já foi mais noite,a manhã já vai chegar. Não vale mais a cançãofeita de medo e arremedopara enganar solidão.Agora vale a verdadecantada simples e sempre,agora vale a alegriaque se constrói dia a diafeita de canto e de pão.…
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Antonio Cicero – Nihil

nada sustenta no nada esta terranada este ser que sou eunada a beleza que o dia descerranada a que a noite acendeunada esse sol que ilumina enquanto errapelas estradas do breunada o poema que breve se encerrae que do nada nasceu REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 24/02/2016