Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Cecília Meireles – Epigrama nº 7

A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília…
-
Carlos Drummond de Andrade – A Um Bruxo Com Amor

“A Um Bruxo Com Amor”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que convoca a sombra de Machado de Assis para celebrar, entre ironia e assombro, a permanência inquieta da literatura sobre o tempo e a morte.
-
Mário de Andrade – Poema da Amiga (VIII)

Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
-
Affonso Romano de Sant’Anna – Carta aos Mortos

Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant’Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
-
José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã…
-
João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a…
-
Carlos Drummond de Andrade – A Mesa

E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a…
-
Nelson Ascher – Visita ao asilo

Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo…
-
Cassiano Ricardo – O Espelho

Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais,…
-
Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à…