Categoria: Poesia em Língua Espanhola
-
Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-lascedo porque nesse dia chegoutambém o frio e passamosa manhã falando do tempo.São duas, e me pergunto quedestino imprevisto as trouxea esta árvore precisa, a este exatolugar onde o tempo delascruza, como um enigma confuso,nosso tempo.À tarde, conversamos sobre elas:“Esta espera delas, imóvel, paciente – dizes -,não sei que imagem estranha e…
-
Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões!Ficamos nus juntos ao mar,e o mar ainda mais nu. Com os olhos,e em corpos ágeis, praticávamosa mais prazerosa posse do mundo. Éramos tocados por vozes banhadas de lua,e era a vida vulcânica e violenta,ingratos com o sonho, fluíamos.O ritmo sombrio das ondasnos abrasava eternamente, e éramos…
-
Francisco X. Alarcón – Prece

Quero um deuspor cúmpliceque vire a noiteem espeluncasde má reputaçãoe acorde tardeaos sábados um deusque assobiepelas ruase estremeçadiante dos lábiosdo seu amor um deusque fique na filaà entradados cinemase tome café com leite um deusque cuspasangue detuberculosoe não tenhanem para o ônibus um deusque desmaiecom uma cacetadada polícianum atode protesto um deusque se urinede medo…
-
Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo resta das almas,como a brisa que surgedepois de alguém passar,e que faz estremeceruma fina cortina na janela.Pela trilha de pedras ásperas que não esquecemmas calam, severas, o que sabem,o vento deixa um silêncio de lágrimaspor vidas como a nossa, perdidas.“Jazigo perpétuo”, a terrasempre dura, fileiras de ciprestes:provinciano teatro da morte.Nosso amor é como o…
-
Luis Alberto de Cuenca – Quando Penso nos Velhos Amigos

Quando penso nos velhos amigos que saíramde minha vida, cedendo a mulheres cruéisque nutrem seu medo e os cobrem com filhospara mantê-los por perto, controlados e impotentes. Quando penso nos velhos amigos que partirampara o país da morte, sem bilhete de volta,apenas por terem buscado o deleite nos corpose o olvido nas drogas que aliviam…
-
Julio Cortázar – O futuro

E sei muito bem que não estarás.Não estarás na rua, no sussurro que brota de noitedos postes, nem no gestode escolher o cardápio, nem no sorrisoque alivia as lotações dos metrôs,nem nos livros emprestados nem no até amanhã. Não estarás nos meus sonhos,no destino original de minhas palavras,nem em um número de telefone estarás,ou na…
-
Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
-
José Mateos – Canção 1

Ainda quase um meninoe sentaste a esperar àbeira do grande silêncio. Pensavas que, a sóscom tua voz, talvez pudessesroubar ao mar seu segredo. Foi-se a tua juventude.Mudos passaram os anose agora estás oco por dentro. Poderias, se enfim soasseo acorde do grande silêncio,chegar a cantar seu eco? Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO poema publicado na página…
-
Francisco Brines – O Triunfo do Amor

“O Triunfo do Amor”, um poema de Francisco Brines que confronta a devastação do tempo com a persistência íntima do amor, fazendo do coração acelerado o último gesto contra o vazio duradouro.
-
Joan Margarit – Aventura Doméstica

Sozinho em casa, vasculhando os armários.Encontro um antigo mapa rodoviário,contratos vencidos, canetas-tinteiroque já não escreverão mais cartas,calculadoras com pilhas descarregadase relógios que o tempo derrotou.Nas profundezas das gavetas, como um rato triste,aninha-se o passado. Vazios, os vestidospendem como velhos personagensque nos interpretaram.De repente, encontro também tua lingerie,cor de areia, da noite, com pequenos bordados.Calcinhas, sutiãs,…