Categoria: Poema
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Helder Moura Pereira – “Eras mesmo a fonte de tudo…”

Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um…
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Andreia C. Faria – “Espero o dia em que possa…”

Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de…
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Juan Vicente Piqueras – Confissão do fugitivo

Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome…
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Ferreira Gullar – Verão

Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo…
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Czesław Miłosz – Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis

Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da…
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Walt Whitman – Aos que Falharam

Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados…
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Adelaide Ivánova – um poema pra italo

a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não…
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Nicolás Guillén – Um poema de amor

Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar…
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Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn…
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Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.