Categoria: Poema
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Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.:…
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Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que…
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Pedro Mexia – “O fogo, o ferro, o futuro”

Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha…
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Wislawa Szymborska – Mapa

Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para…
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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando…
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A. M. Pires Cabral – O Vento

É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
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Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme…
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David Teles Pereira – Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)

Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…