Categoria: Poema
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Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda…
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Manuel António Pina – Café do molhe
Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)…
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Konstantinos Kaváfis – Velas

Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo…
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Idea Vilariño – Não mais

Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem…
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Nâzim Hikmet – O último ônibus

Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a…
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Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima…
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Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil…
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Yehuda Amichai – 1924

Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou…
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Walt Whitman – Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu…