Mês: dezembro 2018
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Nuno Júdice – O Eterno Retorno

Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só…
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Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
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América, Aztecas – O rio passa, passa

O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
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Ian Hamilton – Memorial

Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass…
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Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana,…
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Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir

Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
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José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
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Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
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Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
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Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto…