Mês: maio 2018
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Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a…
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A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas

1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu…
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Eugénio de Andrade – Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
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Inês Dias – Your Funeral, my Trial

O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas.…
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais…
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Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos…
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Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o…
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Ana Martins Marques – de “Três Postais”

São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo…
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Alberto Caeiro – Quando vier a primavera

Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era…
