Tag: Silêncio
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do…
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Cecília Meireles – O Jardim

O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté…
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Shirley Jackson – A Assombração na Casa da Colina (excerto)

“NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros…
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Georg Trakl – De Profundis

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os…
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Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o…
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Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas…
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Carlos Drummond de Andrade – Coisa Miserável

Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe,…
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Giacomo Leopardi – O Infinito

Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas,…
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Aldous Huxley – Silêncio/Música

“Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley