Tag: Espiritualidade
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Carlos Drummond de Andrade – Romaria

Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de…
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Ada Limón – O que eu quero lembrar

Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou…
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Hart Crane – Louvor a uma urna

Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto…
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Giuseppe Ungaretti – Céu Claro

Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del…
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Tyree Daye – Rio Neuse

Diga-lhes para não iremsozinhos às margens. Diga-lhes ondepodem beber sem olharpor cima dos ombros. Diga-lhes que o afogamentovem em terceiro na sua lista de preocupações.A primeira é deite-se, a segunda, venha cá.Mesmo a água em que fui batizadanão é segura. Eu sabia que Deusera homem porque ele pôsum bebê em Maria sem apermissão dela. Trad.:…
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Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente…
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Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, quando o enredoexige que eu me torne pedra,o sol intervém. Em certas manhãsde verão saio de casae o céu se abree se derrama dentro de mimcomo se eu fosse uma santaprestes a morrer. Mas o enredoexige que eu viva,seja comum, não diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos ardem quando passo. Trad.: Nelson…
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W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
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Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a…