Tag: desejo
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Paulo Henriques Britto – Geração Paissandu

Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos…
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Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017
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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

(…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso.…
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no…
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Lucille Clifton – o poema do bebê perdido

na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela…
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Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o…
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Carlos Drummond de Andrade – Fragilidade

Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em…
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Joan Margarit – Coisas em comum

Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou,…
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Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à…
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Victoria Kennefick – Depoimento

Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até…