Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Rui Pires Cabral – Cartas

Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade…
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Fernando Sabino – Certeza

De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
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António Franco Alexandre – Quero dizer-te: não morras

quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
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António Reis – Mudamos esta Noite

Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os…
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Albano Martins – Lembra-te

Leia “Lembra-te”, de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
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Ana Goês – Convida-me só para jantar

E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Terror de te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas.…
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Hilda Hilst – Obriga-me

E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de…
