Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Marcelo Montenegro – Três Pensatos

1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos…
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Ana Martins Marques – História

Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a…
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Ricardo Domeneck – Doentes

Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os…
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Ana Martins Marques – a parte que me cabe

a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto

Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho…
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Marcia Vinci – Mãe Solteira

dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
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Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de…
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A. M. Pires Cabral – Pirilampos III

Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da…
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Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte

Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.