Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo

I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto…
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Rui Lage – EN 314

Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Manuel António Pina – de “Cuidados Intensivos”

I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre…
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Elisa Lucinda – Do Efêmero Presente

Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase…
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Vitor Nogueira – Formol

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a…
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Ruy Belo – Através da chuva e da névoa

Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se…
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Maria Lúcia Alvim – Nosferatu

Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
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Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
