Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel António Pina – Estarei ainda muito perto da luz?

Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja?…
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Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço

Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
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Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também…
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Pedro Mexia – Paráfrase

Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da…
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David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses…
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Amalia Bautista – Contra ‘Remedia Amoris’

Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura.…
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Eugénio de Andrade – As Mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
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João Cabral de Melo Neto – de “Os Três Mal Amados”

Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
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Rui Pires Cabral – «He loved beauty that looked kind of destroyed»

Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e…
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Nuno Júdice – Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante…