Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel António Pina – A Canção dos Adultos

Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose…
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Abel Silva – O Poço

A moeda do Acasocai tão fundono Poço dos Destinosque vivemos descoladosdo viver do outro,como num contrato de comportamento.O milagre do viver nos entorpece.Então a notícia da doença de um amigo,o convite para a missa de um outro,um susto, um alarme, uma suspeitanos vareja no rosto uma aragem de morte.Às vezes choramos,ficamos desorientadosmas abrimos os olhos,levantamos…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugaresonde nunca passou;inquirir, gente não, porém textura,chamar à fala muros de nascença,os que não são nem sabem, elementosde uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis,feitos de cimento do impossível,e ao sol-menino opor a antiga busca,e de tal modo revolver a morteque ela caia em fragmentos, devolvendoseus intactos reféns — e aquele…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro.Na praia deserta, brincando com a areia,No silêncio que apenas quebrava a maré cheiaA gritar o seu eterno insulto,Longamente esperei que o teu vultoRompesse o nevoeiro. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/12/2018
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data,que é única, ôntica, enfática.Nunca depende de quem vainem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba,e, se dele a alma se aparta,não cabe a ninguém afirmá-lo,nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas se apagame trocam-se então os cenários,as…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero,mas não por haver esperança.Falta a ênfase, o tempero,o sal da intemperança, sem o qual não é iguariaà altura de grandes gestos.É mais da categoriadas migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassahá que se tirar sustância.(Até mesmo na desgraçaé pra poucos a abundância.) II Não há nenhum mistério nesta históriaem…
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América, Aztecas – O rio passa, passa

O rio passa, passae nunca cessa.O vento passa, passae nunca cessa.A vida passa:nunca regressa. Versão: Herberto Helder REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/12/2018
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José Carlos Soares – Camel Blue

“Camel Blue”, um poema de José Carlos Soares que contrasta o silêncio do cemitério com a indiferença do céu, revelando a pequena e inquieta persistência da vida entre os restos da morte.
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Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não…
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Ana Martins Marques – Caçada

Leia “Caçada”, de Ana Martins Marques, um poema breve e brilhante sobre amor, desejo e a paradoxal vontade de se perder no outro.