Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Andreia C. Faria – [Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada]
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“Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada”, um poema de Andreia C. Faria
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Manuel Bandeira – Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,Tu refletes as minhas rugas,Os meus cabelos brancos,Os meus olhos míopes e cansados.Espelho, amigo verdadeiro,Mestre do realismo exato e minucioso,Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico,Penetrarias até o fundo desse homem triste,Descobririas o menino que sustenta esse homem,O menino que não quer morrer,Que não morrerá senão comigo,O menino que todos os anos na véspera…
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João Miguel Fernandes Jorge – Presépio Animado da Ribeira Grande

Ainda todos se lembram do dezembro de 96.Era dia de natal. Na estrada que leva ao norteda ilha, sob grande tempestade, trôpego, naberma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persade pelo curto, tinha uma chaga na orelhaalastrava pelo crânio e pela face eolho. Massa disforme de carne e sangue,…
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Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Os cinco anos de tua morteesculpiram já uma criança.Moldada em éter, de tal sorte,ela é fulva e no dia avança. Este menino malasártico,Macunaíma de novo porte,escreve cartas no ar fantásticopara compensar tua morte. Com todos os dentes, feliz,lá de um mundo sem sul nem norte,de teu inesgotável país,ris. Alegria ou puro esporte? Ris, irmão, assim…
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Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro,escuto o tempo fluindono mais completo silêncio.Como remédio entornadoem camisa de doente;como na penugemde braço de namorada;como vento no cabelo,fluindo: fiquei mais moço.Já não tenho cicatriz.Vejo-me noutra cidade.Sem mar nem derivativo,o corpo era bem pequenopara tanta insubmissão.E tento fazer poesia,queimar casas, me esbaldarnada resolve: mas tudose resolveu em dez anos(memórias do smoking…
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Vinicius de Moraes – Cemitério Marinho

Tal como anjos em decúbitoA conversar com o céu baixinhoExistem cerca de cem túmulosNum lindo cemiteriozinhoQue eu, a passeio, descobriUm dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns murosErguidos ao sabor da morteEu nunca vi mortos tão purosMortos assim com tanta sorteAs lajes de cal como túnicasBrancas, e árabes; não púnicas. Sim, porque cemiteriozinhoNunca…
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Helder Moura Pereira – “Eu não tinha nada de felino…”

Eu não tinha nada de felino, tu sabiasque eu não tinha nada de felino.Nenhum de nós se admirou quandomedi mal a distância e falhei o salto.Enquanto ia no ar parecia que eraum salto bom, porém houve qualquercoisa que correu mal e caí com estrondono chão. Ninguém riu. Não era casopara rir. Grande ilusão ir pelo…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céusnem elevam-se abstratostornam-se apenas retratoslado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvelaustero e silenciosodo tio tuberculosoque esquivo me espia. A avó já está friamas me olha com ternuratece uma colcha escurapara as bodas da família, Mortos não sobem trilhasde inconsistentes arranjosnão viram anjos nem brisasnem cristos nem assombrados. Sequer…
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Filipa Leal – Entrevista de Emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um aspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as…
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Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezesna mesma tempestade. Mudamvocê, a água, nem é o mesmo,na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qualvocê houve por bem molhar-se,oferecendo ao temporal– por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciênciade que os sapatos encharcadose a calça manchada de lama terão talvez efeito idênticoao que…